32% de etanol na gasolina: o consumidor brasileiro paga mais e recebe menos

Em 95 anos, o percentual de etanol na gasolina saltou de 5% para 32% — sem que o consumidor tenha sido consultado uma única vez. A trajetória revela um padrão de decisões tomadas ao sabor de interesses setoriais, com o bolso do motorista pagando a conta.
95 anos de aumento silencioso
A história do etanol na gasolina brasileira começa em 1931, quando um decreto pioneiro determinou a mistura de 5% de etanol anidro à gasolina. A medida tinha sentido histórico: o Brasil buscava alternativas à dependência do petróleo importado e aproveitava sua enorme capacidade de produção de cana-de-açúcar.
Nas décadas seguintes, o percentual oscilou conforme as conveniências políticas e econômicas. A crise do petróleo de 1973 acelerou o processo: em 1975 nasceu o Proálcool, programa que institucionalizou o etanol como combustível e empurrou os índices da mistura para cima. Em 1993, a Lei 8.723 fixou o percentual obrigatório em 22%, com margem de manobra ao poder executivo para ajustes.
A seguir, a evolução dos percentuais ao longo das décadas:

Em 95 anos, o percentual do etanol na gasolina subiu 540%. O motorista nunca foi consultado sobre nenhuma dessas decisões
De 27,5% para 32%: a escala recente
Até recentemente, o percentual de etanol anidro na gasolina estava fixado em 27,5% — um patamar que já colocava o Brasil entre os países com maior concentração de biocombustível na gasolina do mundo. Em 2025, com a entrada em vigor da Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/24), o percentual foi elevado para 30%.
Mas o governo não parou por aí. Ainda no primeiro semestre de 2026, o Ministério de Minas e Energia propôs e o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou a elevação para 32% — o chamado E32. O anúncio foi celebrado pelo vice-presidente da República como uma conquista para o país. A pergunta que fica sem resposta é: conquista para quem?
O que o E32 significa para o seu bolso
O etanol possui poder calorífico inferior ao da gasolina pura. Em termos práticos, isso significa que quanto maior o percentual de etanol na mistura, menor é a energia gerada por litro de combustível — e, portanto, menor a autonomia do veículo. Com 32% de etanol na mistura, o consumidor que abastece com gasolina C está recebendo, a cada litro, quase um terço de um combustível energeticamente menos eficiente.
A conta é simples: o motorista paga o preço da gasolina, mas a quilometragem rodada é menor do que seria com gasolina pura. Trata-se, na prática, de uma redução velada do poder de compra do consumidor, embutida dentro do próprio combustível, sem qualquer desconto no preço final.
Além do rendimento reduzido, há preocupações técnicas sobre os efeitos do E32 em veículos mais antigos e em motocicletas. Sistemas de injeção, mangueiras, vedações e componentes metálicos do motor não foram originalmente projetados para concentrações tão elevadas de etanol. O desgaste prematuro é uma consequência real para parcela significativa da frota nacional.
Você paga por 1 litro de gasolina e leva 32% de álcool. Isso não é transparência — é o consumidor sendo ludibriado na bomba.
A lógica por trás da decisão: quem se beneficia?
Para entender a escalada do etanol na gasolina, é preciso olhar para além da retórica ambiental. O aumento da mistura representa, diretamente, mais demanda por etanol anidro — produto cujos principais fornecedores são as usinas sucroalcooleiras, setor com histórico de influência relevante sobre políticas públicas no Brasil.
Cada ponto percentual adicional de etanol na mistura da gasolina representa bilhões de litros a mais de demanda pelo produto. Com o E32 obrigatório em todo o território nacional, o setor sucroalcooleiro ganha um mercado cativo e garantido por decreto — sem precisar competir, litro a litro, com a gasolina pura no bolso do consumidor.
É legítimo apoiar a produção nacional de biocombustíveis. O Brasil tem vantagens comparativas reais na produção de etanol de cana-de-açúcar. O problema não é o etanol em si — é a forma como a política é conduzida: sem transparência, sem debate público, sem critério técnico independente e, sobretudo, sem considerar o impacto sobre o consumidor final.
Achismo no lugar de política pública
A aprovação do E32 pelo CNPE acontece num contexto em que o próprio governo reconhece que a viabilidade técnica da mistura ainda estava em fase final de testes. Isso significa que uma decisão com impacto direto sobre dezenas de milhões de veículos foi tomada antes de os resultados serem plenamente consolidados e submetidos ao escrutínio independente.
Países sérios constroem política energética com base em estudos técnicos robustos, consultas ao setor produtivo, avaliação de impacto sobre o consumidor e debate parlamentar. No Brasil, o padrão recorrente é diferente: a decisão é tomada primeiro, a justificativa técnica vem depois — quando vem.
Nenhum outro país do mundo adota 32% de etanol na gasolina como mistura obrigatória. Isso não é pioneirismo — é isolamento. E o custo desse isolamento é pago pelo motorista que abastece seu carro todo mês sem saber exatamente o que está comprando.
Nenhum país do mundo mistura 32% de etanol na gasolina. Isso não é vanguarda — é experimentação com o dinheiro e os veículos do brasileiro.
O que o Brasil precisa de verdade
Defender o etanol como componente da matriz energética brasileira não é incompatível com exigir planejamento, transparência e respeito ao consumidor. São exigências que deveriam andar juntas. O Brasil precisa de uma política de biocombustíveis que seja sustentável não apenas do ponto de vista ambiental, mas também do ponto de vista econômico para quem está do outro lado da bomba de combustível.
Isso significa: estudos técnicos independentes antes de cada alteração; comunicação clara ao consumidor sobre o que está comprando; compensação ou ajuste no preço final que reflita a menor densidade energética do combustível com maior teor de etanol; e, acima de tudo, a abertura de um debate público genuíno sobre os rumos da política energética nacional.
O consumidor brasileiro é paciente. Paga impostos entre os mais altos do mundo, convive com infraestrutura precária e absorve decisões políticas que raramente o beneficiam diretamente. Mas paciência tem limite — e o limite começa quando nem ao menos se sabe o que se está pagando na bomba de gasolina.
Fontes: Wikipedia – Etanol como combustível no Brasil; TECCOM; Secretaria de Comunicação Social (Secom); Blog ClubPetro; Novacana; ANP – Agência Nacional do Petróleo.