Por que o processo do filho de Lula está “preso” no STF, longe da Justiça que julga o cidadão comum?

Brasília, leitor, tem um tipo de pergunta que a grande imprensa faz baixinho, nas entrelinhas de matérias técnicas, quando deveria estar gritando na primeira página. Essa é uma delas: por que Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente, está sendo investigado no STF — o mesmo tribunal reservado a quem tem foro privilegiado — se ele, oficialmente, não tem foro nenhum?
O segredo que uma especialista resolveu escancarar
Já são três inquéritos abertos contra Lulinha, todos ligados aos desdobramentos da Operação Sem Desconto, o esquema que sugou bilhões da aposentadoria de gente simples. O terceiro foi autorizado nesta terça-feira (4/8) pelo ministro Flávio Dino. Os dois primeiros investigam as ligações dele com gente que tentava fechar contrato com o Ministério da Saúde e com a Dataprev.
Pois bem: a professora de Direito Penal da FGV Luísa Moraes Abreu Ferreira levantou a questão que devia estar no centro do debate. Segundo ela, a Constituição determina que quem não tem foro por prerrogativa de função seja investigado na primeira instância — a Justiça comum, a mesma que julga qualquer brasileiro — a não ser que exista conexão comprovada com uma autoridade que tenha foro. Lulinha não ocupa cargo público. Não devia, portanto, estar sendo investigado lá no topo da pirâmide do Judiciário.
O que ninguém quer admitir que está sendo cometido
O erro comum é achar que “estar no STF” é sinônimo de rigor. Na prática, pode ser o contrário: menos instâncias de recurso, tramitação mais lenta e sigilosa, e uma exposição midiática — e política — completamente diferente da que teria um processo correndo numa vara criminal qualquer, como corre para qualquer cidadão nas mesmas circunstâncias.
A autoridade dos bastidores: a queda de braço entre ministros
E tem mais um capítulo dessa história que resume bem o tamanho da confusão institucional. O procedimento normal seria a Polícia Federal pedir a abertura das investigações ao ministro André Mendonça, relator do primeiro inquérito. Só que os pedidos seguintes foram protocolados como se não tivessem conexão com o primeiro — na prática, uma tentativa de sortear um novo relator. Não deu certo: Mendonça acabou sorteado de novo para o segundo inquérito. Aí a PF pediu abertura de mais um procedimento, e dessa vez foi Flávio Dino quem caiu no sorteio e autorizou a terceira apuração.
Ou seja: enquanto o cidadão comum enfrenta a Justiça de primeira instância, o processo do filho do presidente vira, nos bastidores do STF, um jogo de cadeiras.
A transformação de uma viagem à Europa em símbolo do caso
Entre as provas reunidas pela Polícia Federal está uma viagem de Lulinha à Europa, no fim de 2024, paga por Antônio Camilo Antunes — o “Careca do INSS”, hoje preso desde setembro de 2025, que na época comandava uma empresa do ramo de medicamentos à base de cannabis. Uma viagem internacional bancada por alguém hoje atrás das grades por fraude contra aposentados. É esse tipo de detalhe que transforma um processo técnico em pergunta que qualquer família brasileira entende: por que ele, filho do presidente, e não qualquer um de nós, teria esse tipo de tratamento?
A polêmica que a Caixeta News não vai deixar passar batido
Vale o registro, com justiça: Lulinha não é investigado pelos descontos irregulares nos benefícios de aposentados e pensionistas em si — os inquéritos tratam de suposto tráfico de influência ao redor do escândalo. Mas o fato de o caso tramitar onde tramita, do jeito que tramita, já é, por si só, a notícia.
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