O BRASIL QUE FAZ A GENTE ACREDITAR
Enquanto Brasília briga, a Seleção une. Vini Jr. com 4 gols, Neymar de volta e um jogo na segunda-feira que vai parar o país inteiro

Eu preciso te contar uma coisa.
Essa semana foi pesada. Política, escândalo, decisão do STF que não veio, racha de partido, candidatura em crise, dinheiro público desviado, frase dita em depoimento que não deveria ter sido dita. Sete dias de Brasília no modo tempestade.
E então chegou quarta-feira à noite.
Hard Rock Stadium, Miami. Brasil 3, Escócia 0. Sessenta e quatro mil pessoas. Vini Jr. com dois gols e uma raiva boa de viver que não se explica, só se sente. Neymar entrando em campo pela primeira vez depois de quase três anos — e a torcida explodindo como se o relógio tivesse dado uma pausa.
Às vezes o Brasil que aparece na televisão às 19h não é o Brasil que vive em Brasília. E nessa quarta, o Brasil que apareceu no Hard Rock Stadium era exatamente o Brasil que a gente precisa ver quando está cansado de tudo.
Vou te contar como chegamos aqui. E por que segunda-feira, 29 de junho, às 14h, você precisa parar tudo que estiver fazendo.
O segredo que Ancelotti descobriu antes de todo mundo
Quando a CBF anunciou Carlo Ancelotti como técnico da Seleção em maio de 2025, a reação foi mista. Muita gente torcia o nariz. Estrangeiro nunca havia comandado o Brasil numa Copa. A tradição é sagrada no futebol brasileiro, e mexer nela é pedir confusão.
Mas Ancelotti sabia de uma coisa que os críticos não queriam enxergar.
Ele passou anos trabalhando com Vinicius Júnior no Real Madrid. Conhece o jogador como ninguém — sabe quando empurrá-lo, sabe quando dar espaço, sabe que Vini precisa de liberdade para ser devastador e de confiança para ser consistente. No clube, Ancelotti já havia transformado um talento brilhante mas errático num craque completo.
Na estreia contra o Marrocos, quando o Brasil estava perdendo e o MetLife Stadium estava silencioso, Vini recebeu na esquerda, cortou para dentro, e chutou. Gol. Empate. Brasil vivo.
Não foi sorte. Foi exatamente o que Ancelotti esperava.
“Do Ancelotti é sempre muito fácil falar, porque é um cara que me conhece como ninguém. Ele sempre me faz me adaptar o mais rápido possível à equipe, me dá a importância que eu preciso e que mereço.”
Quem falou isso foi Vini Jr. Depois do primeiro gol. Com aquele sorriso que mistura alívio com certeza.
O erro que a Seleção cometeu — e como se transformou em líder de grupo
Vou ser honesta, porque é o meu jeito.
O empate com Marrocos na estreia foi feio. O Brasil foi dominado por bons pedaços do jogo, sofreu o gol primeiro, e só conseguiu empatar graças à qualidade individual de um único jogador. Não foi futebol de time. Foi resgate individual.
A crítica foi unânime. A torcida cobrou. A imprensa cobrou. Até os aliados de Ancelotti nos bastidores, gentilmente, disseram que era preciso ajustar.
E aí aconteceu a coisa mais importante da Copa até aqui, que quase ninguém percebeu.
Ancelotti ouviu. Mudou. Ajustou.
Contra o Haiti, a equipe já estava diferente — mais organizada, mais agressiva no ataque, melhor no posicionamento. A vitória veio. E contra a Escócia, já com o esquema tático encaixado, o Brasil mostrou que existe um plano, que existe uma evolução jogo a jogo, que existe um técnico que aprende rápido e corrige sem drama.
Isso, para quem acompanha futebol há anos, não é detalhe pequeno. É o sinal de um time que tem chão para crescer dentro do torneio.
A transformação que fez a torcida chorar
Eu preciso falar do Neymar.
Não do Neymar que a mídia critica. Não do Neymar das polêmicas. Do Neymar que entrou no Hard Rock Stadium na quarta-feira, depois de quase três anos sem vestir a camisa da Seleção, depois de uma lesão na panturrilha que ameaçou encerrar a carreira dele na Copa, depois de tanta espera e tanta dúvida.
Quando o nome dele apareceu no placar para entrar em campo, o estádio explodiu de um jeito diferente. Não foi só a euforia do gol. Foi aquela coisa que acontece quando alguém que você tinha quase desistido de ver de volta aparece — e você percebe que ainda estava torcendo por ele o tempo todo.
Ancelotti o poupou durante toda a fase de grupos. Esperou o momento certo. E o momento certo foi exatamente quando o Brasil já estava classificado em primeiro, já estava confortável, e a entrada de Neymar podia ser uma celebração em vez de uma pressão.
Funcionou. A torcida cantou. O craque sorriu. E o Brasil lembrou que tem dois jogadores que, quando estão juntos em campo em dia de Copa do Mundo, produzem um futebol que não existe em nenhum outro lugar do planeta.
O que você precisa saber sobre o Japão — e por que não é fácil
Segunda-feira, 29 de junho, 14h de Brasília, em Houston.
O adversário é o Japão — segundo colocado do Grupo F, com cinco pontos, dois empates e uma vitória. Uma equipe rápida, disciplinada, extremamente organizada taticamente e com uma característica que incomoda qualquer favorito: eles não se intimidam com o nome do adversário.
O Japão eliminou a Alemanha e a Espanha na Copa de 2022. É um time que joga como um conjunto, que pressiona alto, que transiciona em velocidade e que não comete os erros que times menores cometem quando enfrentam grandes seleções.
Não existe jogo fácil no mata-mata da Copa do Mundo. Nunca existiu. E a história está cheia de seleções que acharam que existia.
O Brasil sabe disso. E a leitura de Ancelotti, que cresceu no futebol europeu convivendo com equipes japonesas desde a época de J-League ter virado referência mundial, é de respeito total pelo adversário.
Mas também é de confiança no próprio elenco.
Por que essa Copa é diferente de todas as outras — a autoridade que confirma
Tenho acompanhado Copas do Mundo desde criança. E tem algo nessa de 2026 que é diferente.
Talvez seja o formato com 48 seleções, que deu ao torneio uma energia diferente — mais jogos, mais surpresas, mais histórias. Talvez seja o fato de o Brasil ter um técnico estrangeiro pela primeira vez, o que paradoxalmente eliminou parte do peso emocional que às vezes sufoca as campanhas brasileiras. Talvez seja Vini Jr. — que com quatro gols já é o principal nome do torneio — finalmente tendo a Copa do Mundo que ele merecia.
Ou talvez seja outra coisa, mais simples.
Depois de 24 anos sem título. Depois de três Copas dolorosas seguidas — 2014 na semifinal em casa, 2018 nas quartas, 2022 nas quartas de novo. Depois de tanto sofrimento coletivo guardado em cada coração brasileiro — este time parece diferente. Parece que foi construído com paciência, com critério, com respeito pelo processo.
E quando um time assim chega ao mata-mata em primeiro lugar do grupo, com o artilheiro do torneio na ponta esquerda e o maior jogador brasileiro de todos os tempos saindo do banco com fome —
Dá pra acreditar.
O que o eleitor conservador, a família de Brasília, precisa entender sobre este momento
Vou terminar com uma coisa que pode parecer óbvia mas às vezes a gente esquece de falar em voz alta.
A Copa do Mundo é o único evento no planeta que faz uma família inteira — avô, neto, tio que não se fala com sobrinho, vizinho que vota diferente, colega de trabalho que tem opinião contrária — sentar no mesmo sofá e torcer para a mesma coisa.
É o momento em que o Brasil para de ser Brasília e volta a ser Brasil.
Nessa segunda-feira às 14h, a empregada doméstica, o servidor público, o empresário, o motorista de app, o estudante, o aposentado — todos vão estar de olho na mesma tela, com o coração no mesmo lugar, rezando para que Vini Jr. faça mais um daqueles gols que param o tempo.
E nesse momento, durante 90 minutos, nenhum áudio de WhatsApp, nenhuma decisão do STF, nenhuma pesquisa eleitoral vai importar.
Só vai importar o Brasil.
Arruma o sofá. Prepara a pipoca. Chama a família.
Segunda-feira, às 14h, a gente tem um compromisso.
Vai torcer? Acredita no Hexa? Me conta aqui nos comentários — e manda essa matéria pra família toda no grupo do WhatsApp. Segunda-feira é dia de parar o Brasil. 🇧🇷