A desistência de Ibaneis e o vácuo que a direita não pode se dar ao luxo de deixar aberto no DF

Depois de confirmar reiteradas vezes que disputaria uma vaga ao Senado, Ibaneis Rocha anunciou, na noite de 8 de julho, que desiste da candidatura. A justificativa oferecida ao Metrópoles foi pessoal: “Quero descansar. Já cuidei de Brasília e agora quero cuidar de mim.” É uma frase feita para fechar um capítulo sem abrir uma investigação sobre os motivos reais. Mas política não se explica por cansaço, e o timing da saída conta uma história diferente da do comunicado.
Ibaneis deixou o Palácio do Buriti para cumprir a desincompatibilização exigida por lei e viabilizar a candidatura. Poucos meses depois, joga a toalha. No intervalo, seu nome foi diretamente associado ao escândalo do Banco Master, uma das maiores fraudes bancárias da história recente do país. O BRB, banco público do qual o governo do DF é acionista majoritário, absorveu cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos do Master hoje considerados de recuperação duvidosa, com perda potencial estimada entre R$ 5 e 9 bilhões. Daniel Vorcaro, controlador do banco liquidado, admitiu ter se reunido pessoalmente com Ibaneis para tratar da venda da instituição ao BRB — encontro que o então governador minimizou dizendo que “entrou mudo e saiu calado”. A oposição não comprou o silêncio: em janeiro, PSB, Cidadania e PSOL já protocolavam pedidos de impeachment. Candidatar-se ao Senado sob esse peso, com a cobertura de imprensa que uma campanha nacional exige, é caminhar debaixo de uma tempestade sem guarda-chuva. A decisão de recuar tem menos de descanso e mais de cálculo de sobrevivência política.
O segundo abalo no tabuleiro do DF não vem da Justiça, vem de dentro de casa. A crise pública entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro — desencadeada pela disputa sobre a chapa do PL no Ceará, onde Michelle resiste à aliança com Ciro Gomes que sacrificaria a pré-candidatura de Priscila Costa ao Senado — já custou a Michelle a presidência do PL Mulher e lançou dúvida sobre sua própria candidatura no Distrito Federal. Isso não é fofoca de bastidor: Michelle lidera com folga as pesquisas para o Senado no DF e é tratada como favorita quase incontestável. Uma desistência dela, somada à de Ibaneis, deixaria o campo conservador brasiliense sem os dois nomes mais fortes justamente no momento em que essas vagas importam mais.
E aqui está o ponto que qualquer eleitor de direita precisa entender antes de agosto: a eleição para o Senado em 2026 não é uma disputa qualquer. É, talvez, a última alavanca institucional disponível para conter os excessos do Supremo Tribunal Federal. A Constituição atribui exclusivamente ao Senado o poder de processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade — mecanismo que existe desde 1988 e nunca foi usado. É também o Senado quem sabatina e aprova, por voto secreto, cada novo indicado à Corte. Um Senado composto por maioria disposta a exercer esse controle é, na prática, o único freio formal contra um tribunal que se acostumou a legislar, prender e censurar por decisão monocrática. Sem maioria no Senado — e sem uma Mesa Diretora disposta a pautar os processos, porque hoje pedidos de impeachment se acumulam engavetados por conveniência política — a separação de poderes desenhada pelos constituintes continua sendo letra morta.
Friedrich Hayek advertia que a concentração de poder sem controles é o caminho mais curto para o arbítrio, ainda que travestido de boas intenções. Thomas Sowell descreveria o ativismo judicial de hoje como a marca registrada da “visão irrestrita”: a crença de que uma elite iluminada — magistrados incluídos — sabe melhor do que as instituições representativas o que é bom para todos, e por isso pode se sobrepor a regras, prazos e ao próprio texto constitucional. Contra essa visão, o antídoto não é retórica inflamada nas redes sociais, é engenharia institucional: eleger senadores dispostos a usar as ferramentas que a Constituição já lhes deu.
É exatamente por isso que o vácuo aberto por Ibaneis e a incerteza em torno de Michelle preocupam mais do que uma crise de bastidor local. O eleitorado do Distrito Federal, capital do país e sede dos três Poderes, tem uma responsabilidade que vai além do estado: escolher representantes com coragem para usar o Senado como o instrumento de reequilíbrio que ele foi desenhado para ser. Não basta eleger quem promete bater de frente com o STF em discurso de campanha. É preciso eleger quem, uma vez empossado, esteja disposto a pautar impeachments, exercer sabatinas rigorosas e devolver ao Congresso o protagonismo que a Constituição lhe reserva.
Nesse cenário, são Bia Kicis e Michelle Bolsonaro os nomes que melhor traduzem essa direita disposta a colocar freios no STF — a primeira pela trajetória de enfrentamento direto e conhecimento técnico do Judiciário construída na Câmara, a segunda pelo capital político de representar o bolsonarismo em sua forma mais direta junto ao eleitorado. Caso a crise com Flávio realmente tire Michelle da disputa, é Bia Kicis quem deve assumir a liderança dessa corrida no DF, e o espaço aberto no campo conservador tende a ser meta do desembargador Sebastião Coelho (Novo), nome técnico que pode capitalizar o eleitor de direita órfão de candidatura. O nome certo nas urnas em outubro pode valer mais para o Estado de Direito brasileiro do que qualquer outra vaga em disputa neste ciclo eleitoral.