Do Metlife Stadium a Brasília: o Brasil que não planeja

No último domingo, a Seleção Brasileira caiu diante da Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, a eliminação mais precoce em 36 anos. Fora de campo, porém, a derrota expôs algo mais antigo e mais grave do que uma falha tática: a incapacidade crônica de uma instituição brasileira de se organizar em torno de mérito, planejamento de longo prazo e prestação de contas. A CBF virou, sem querer, uma metáfora perfeita do país — e, em particular, do estilo de gestão que o Partido dos Trabalhadores consolidou à frente do Executivo federal.
Uma federação sem método
Desde o pentacampeonato de 2002, a Seleção trocou de técnico com uma frequência que nenhuma potência do futebol mundial toleraria. Carlos Alberto Parreira, Dunga, Mano Menezes, Scolari de novo, Dunga de novo, Tite, Fernando Diniz interinamente, Dorival Júnior e, por fim, Carlo Ancelotti — contratado às pressas, como resposta emocional a uma crise, não como parte de um projeto de seleção construído com dez ou quinze anos de antecedência, à maneira da Espanha pós-2008 ou da própria Alemanha depois do vexame de 2000.
Cada troca de comando veio acompanhada do mesmo ritual: a CBF anuncia “um novo ciclo”, descarta o anterior, e recomeça do zero. Não existe uma metodologia de base, um projeto de categorias de formação integrado à Seleção principal, nem indicadores de desempenho que sobrevivam à saída de um dirigente. Como diria Peter Drucker, uma organização que não consegue medir e sustentar objetivos de médio prazo não é gerida — é administrada por impulso. O drama recente da entidade não é só técnico: é institucional. Ednaldo Rodrigues, presidente afastado e depois recolocado no cargo por decisão liminar do STF, chegou a telefonar diretamente ao presidente Lula, em viagem oficial à Rússia, pedindo apoio político para se manter no comando da CBF — um episódio que resume bem como a lógica de sobrevivência de grupos dirigentes, e não o mérito esportivo ou administrativo, decide quem manda no futebol brasileiro. A FIFA chegou a ameaçar suspender a entidade por causa da intervenção judicial, e o imbróglio Ednaldo–Justiça–STF se arrastou por anos, com adiamentos sucessivos de julgamento e disputas de bastidores envolvendo nomes como Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero — cartolas que a própria FIFA baniu, mas cuja influência nunca desapareceu de fato.
O mesmo desenho, em Brasília
Trocar de técnico sem método é o equivalente esportivo de trocar ministros da Fazenda, presidentes do Banco Central ou diretorias de estatais por critério de aliança política, não de competência comprovada. É exatamente o que se observa, ciclo após ciclo, na gestão do PT desde os primeiros governos Lula. Cargos em empresas como Petrobras e BNDES são historicamente distribuídos como moeda de barganha entre partidos da base aliada — não como resultado de um processo seletivo transparente e técnico. Trocam-se comandos, trocam-se diretrizes, mas o país nunca acumula uma política industrial, energética ou fiscal que resista a um novo humor político.
Thomas Sowell descreveu bem esse fenômeno quando distinguiu visões que tratam recursos e cargos como prêmios de disputa política daquelas que os tratam como resultado de processos competitivos e mérito comprovável. Na visão do PT, como na visão da cúpula histórica da CBF, o critério decisivo raramente é “quem faz melhor”, e sim “quem está mais alinhado”. O resultado é o mesmo nos dois campos: descontinuidade. Planos plurianuais existem no papel, mas raramente sobrevivem à troca de ministro; metas fiscais são anunciadas com solenidade e reformuladas meses depois, como o próprio arcabouço fiscal, que já nasceu sendo flexibilizado nas primeiras vezes em que as metas de resultado primário ficaram difíceis de cumprir.
Hayek já alertava, décadas atrás, que o problema central de qualquer planejamento centralizado é a pretensão de que um punhado de dirigentes — sejam eles cartolas de uma confederação ou ministros de um governo — possa substituir, por decreto ou por vontade política, o conhecimento disperso e as regras estáveis que permitem a instituições complexas evoluírem organicamente. Uma seleção não se constrói com contratações de pânico às vésperas de um Mundial, assim como uma economia não se organiza com médias de curto prazo entre populismo fiscal e ajustes forçados por crise. Os dois sistemas — CBF e Planalto petista — compartilham o mesmo vício: decidir sob pressão do calendário eleitoral ou do resultado imediato, sacrificando o planejamento de década que separa países sérios de países que vivem de reação.
Transparência: a peça que falta nos dois tabuleiros
Outro ponto de convergência é a opacidade financeira. A CBF nunca foi exemplo de transparência plena sobre contratos de patrocínio, bilheteria e repasses aos clubes; episódios de gestão questionada, como as despesas milionárias atribuídas a Ednaldo Rodrigues e hoje sob investigação, e um ambiente interno marcado por denúncias de assédio e má gestão, mostram uma entidade que trata a prestação de contas como formalidade, não como princípio.
Em Brasília, o padrão se repete em outra escala: pedaladas fiscais, uso de emendas parlamentares fora dos critérios técnicos de execução orçamentária e a resistência recorrente a mecanismos de controle externo (TCU, imprensa, órgãos independentes) são queixas antigas contra a gestão petista, revividas a cada novo episódio de tensão entre Executivo e Congresso sobre o Orçamento. Milton Friedman resumia esse tipo de problema com uma pergunta simples: quem gasta o dinheiro dos outros, e não presta contas direta e transparente a quem o produziu, tende a gastar mal e a esconder o resultado. Vale para a diretoria de uma confederação esportiva autofinanciada por direitos de imagem e patrocínio; vale, com ainda mais força, para quem administra o orçamento público.
O fio que une os dois casos
Não é força de expressão dizer que a Seleção perdeu para a Noruega antes mesmo de pisar no gramado do Metlife Stadium: perdeu quando a CBF decidiu, ano após ano, que crise se resolve com demissão de técnico e acordo de bastidores, não com projeto. O Brasil, como país, corre risco parecido quando trata a gestão pública como um jogo de cargos e alianças, e não como um exercício de planejamento sério, meritocracia e prestação de contas. Faltou, à Seleção de 2026, o que falta à economia brasileira há duas décadas de governos petistas: uma estrutura que sobreviva a quem está no comando, e não dependa da improvisação de cada novo ciclo.