O aluno mais caro do Brasil está na escola errada

Pais e mães do Distrito Federal já sentiram no bolso: a mensalidade da escola particular voltou a subir acima da inflação, e para 2026 o reajuste médio projetado é de 9,8%, mais que o dobro da inflação esperada. O que quase ninguém para para calcular é que, enquanto essa conta pesa no orçamento doméstico, o governo já gasta, por aluno da rede pública, mais do que a maioria dessas famílias paga na escola particular. E gasta pior.
Os números não deixam muita margem para interpretação. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do movimento Todos Pela Educação, com base em dados do Siconfi/Finbra, o Distrito Federal gastou, em 2024, R$ 16,2 mil por aluno da rede pública — o maior valor entre todas as unidades da federação, bem acima da média nacional de R$ 14,3 mil. Somando os R$ 6,7 bilhões do orçamento próprio do GDF em educação com os R$ 5,4 bilhões vindos do Fundo Constitucional em 2023, o Distrito Federal despeja bilhões todos os anos numa rede que atende cerca de 630 mil alunos.
Do outro lado do balcão, uma família que opta pela rede privada no DF paga, em média, algo entre R$ 1.025 e R$ 1.516 por mês, dependendo da etapa — Educação Infantil, Fundamental ou Médio —, segundo levantamento da Quero Bolsa com mais de sete mil escolas parceiras. Isso equivale a algo entre R$ 12,3 mil e R$ 18,2 mil por ano, considerando só a mensalidade. Na média das etapas, gira em torno de R$ 14,4 mil anuais. Ou seja: o Estado gasta, por aluno, um valor igual ou superior ao que a família de classe média paga do próprio bolso para fugir da rede pública.
O problema não é a falta de dinheiro. É o que esse dinheiro compra.
O que o dinheiro público entrega
Os resultados de aprendizagem do Distrito Federal escancaram o descompasso entre gasto e entrega. No Ideb 2023, a rede pública do DF até superou a meta nacional nos anos iniciais do fundamental (6,4 contra a meta de 6,0), mas empatou com a média do país nos anos finais (5,0) e ficou abaixo dela no ensino médio (4,2 contra 4,3) — justamente a etapa em que o DF, junto com Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul, mais retrocedeu desde 2019.
O retrato fica mais nítido quando se compara rede pública e rede privada dentro do próprio DF. Pelos dados do Saeb sistematizados pelo Todos Pela Educação, a proporção de alunos do ensino médio com aprendizagem adequada em língua portuguesa é de 39,1% na rede pública contra 78,5% na rede privada — mais que o dobro. Em matemática, a distância é ainda mais brutal: 7% na rede pública contra 48,9% na privada, uma diferença de quase sete vezes. Nos anos finais do fundamental, o padrão se repete: 18,3% contra 63,6% em matemática. São crianças pagando, com o próprio futuro, por um sistema que recebe recursos de sobra e devolve pouco em troca.
Esse não é um fenômeno raro nem exclusivo do Distrito Federal, e a explicação para ele já foi dada, com décadas de antecedência, por quem entendeu que o problema da educação pública nunca foi essencialmente orçamentário. Milton Friedman argumentava que sistemas de monopólio estatal, blindados da concorrência e do risco de perder o cliente, não têm por que ser eficientes — e não são, em nenhum lugar do mundo, sistematicamente. Não é uma questão de má vontade de professores ou gestores: é uma questão de estrutura de incentivos. Quando a escola recebe o mesmo repasse independentemente de reter ou perder alunos, quando a família não pode “votar com os pés” e levar o filho para outro lugar, a pressão por qualidade simplesmente desaparece do sistema. Sobra burocracia, sobra gasto com folha e estrutura administrativa — os R$ 4,7 bilhões de pessoal e encargos consomem sozinhos 70% do orçamento próprio da educação no DF —, e falta o que deveria ser o produto final: aprendizagem.
A solução: devolver a escolha à família, no modelo original de Friedman
Se o diagnóstico é de monopólio sem incentivo para performar, a solução lógica não é jogar mais dinheiro no mesmo sistema — é mudar quem decide para onde o dinheiro vai. Foi exatamente essa a proposta de Milton Friedman em seu ensaio de 1955, “The Role of Government in Education”, depois incorporado ao clássico Capitalism and Freedom (1962): o voucher educacional.
A ideia de Friedman era, na sua essência, simples e radical ao mesmo tempo. O governo continuaria financiando a educação básica — isso ele nunca contestou, reconhecendo que há um interesse público legítimo em garantir que toda criança seja educada. O que ele propunha romper era a fusão entre financiar e operar. Em vez de transferir recursos diretamente às escolas da rede pública, o Estado emitiria um voucher, um cupom, no valor equivalente ao gasto público por aluno, para cada família. Esse voucher poderia ser usado em qualquer escola credenciada — pública ou privada, confessional ou laica —, desde que a instituição cumprisse padrões mínimos, definidos objetivamente, como os relacionados à alfabetização e ao domínio de conteúdos básicos. A regulação estatal, no desenho original de Friedman, deveria ser mínima: fiscalizar padrões essenciais, não microgerenciar currículo, método pedagógico ou gestão interna da escola.
O efeito pretendido é a concorrência. Se o dinheiro segue o aluno, e não o contrário, toda escola — pública inclusive — passa a depender de atrair e reter famílias para continuar existindo. As que entregam pouco aprendizado por muito dinheiro perdem matrícula e fecham ou se reformam; as que entregam mais por menos crescem. É o mesmo mecanismo que, em qualquer outro setor da economia, empurra empresas a cortar desperdício e melhorar produto sob pena de perder cliente para o concorrente — só que aplicado a um setor historicamente blindado dessa disciplina.
Aplicado ao Distrito Federal, o exercício é direto. Com um gasto público de R$ 16,2 mil por aluno e ano — hoje inteiramente capturado pela máquina da rede pública, sem qualquer possibilidade de a família redirecioná-lo —, um voucher nesse valor colocaria a maioria das escolas particulares do DF ao alcance de qualquer família, já que a mensalidade média de mercado (entre R$ 12,3 mil e R$ 18,2 mil anuais, a depender da etapa) está na mesma faixa. Não seria preciso aumentar um centavo do orçamento da SEEDF: bastaria permitir que ele acompanhasse a criança, e não a matrícula na escola do bairro definida por zoneamento.
Isso não elimina a rede pública — pelo contrário, a obriga a competir de igual para igual, com a mesma régua orçamentária, pela confiança das famílias. Escolas públicas bem geridas, com bons resultados, teriam tudo para prosperar nesse desenho; as que hoje sobrevivem apenas porque o aluno não tem para onde ir perderiam essa proteção artificial. E famílias de baixa renda — que hoje são as mais reféns da escola pública de qualidade incerta perto de casa, porque não têm como bancar a mensalidade da rede privada — passariam a ter a mesma liberdade de escolha que hoje é exclusiva de quem tem dinheiro sobrando no fim do mês.
O Distrito Federal já paga a conta de um sistema caro. A pergunta que falta responder é por que insistir em pagar caro por um serviço que, pelos próprios números da Secretaria de Educação e do Inep, entrega cada vez menos no fim da linha — quando existe, há setenta anos testado e discutido no mundo todo, um desenho que faz o dinheiro trabalhar a favor de quem mais importa nessa equação: o aluno.