Não é só Moraes. Agora o próprio procurador-geral também aparece na mensagem

O caso que já vinha derrubando a credibilidade do Supremo Tribunal Federal acabou de ganhar um capítulo que muda tudo de figura. Não é mais só o ministro Alexandre de Moraes no centro das mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro. Agora, o próprio procurador-geral da República, Paulo Gonet, quem deveria estar acusando, aparece citado nos mesmos registros que embasam o caso.
Segundo o relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça, o advogado Ciro Soares, que defendia o Banco Master, funcionava como intermediário entre Vorcaro e Gonet. Em abril de 2024, Soares teria dito ao banqueiro que “Gonet é firme” e que “amizade é tudo”. Em março de 2025, o mesmo advogado enviou a Vorcaro uma foto ao lado do procurador-geral, seguida de mensagens pedindo para ligar, com a promessa de que Gonet “quer falar com você”. A perícia identificou quatro ligações entre o telefone de Vorcaro e o de Soares, algumas rápidas, outras de quase quatro minutos. Uma mensagem do próprio banqueiro, endereçada a outros contatos, ainda cita a dificuldade de “reverter isso com Paulo e Andrei”, numa referência que investigadores associam a Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal.
Tem mais: a investigação aponta que Vorcaro teria custeado despesas de viagem do filho do procurador-geral, Pedro Gonet, numa comitiva a Londres. E o pior: essa revelação veio à tona bem na terça-feira, no mesmo dia em que Gonet estava no plenário do STF representando a Procuradoria-Geral da República no julgamento que decide se Moraes deve ser investigado. Ou seja, o homem encarregado de fiscalizar o colega estava, ao mesmo tempo, sendo apontado como próximo demais do mesmo banqueiro que originou todo o escândalo.
Aqui está o erro que a grande mídia insiste em não destacar: quando o assunto é bolsonarista, a cobertura é imediata, o julgamento é sumário. Quando o nome pertence à cúpula do próprio sistema de Justiça, vira “procedimento interno”, “sem efeito acusatório”, e a sessão que vai discutir o caso, marcada para o dia 25 de setembro no Conselho Superior do Ministério Público Federal, nem sequer é um processo disciplinar. É só uma conversa.
Para ser justo com o leitor: Gonet nega qualquer relação de amizade ou interesse pessoal com Vorcaro, afirma ter se encontrado com ele uma única vez, em um evento jurídico em Londres, e classifica toda a acusação como infundada e baseada em interpretação equivocada de mensagens entre terceiros. Ele também nega ter pedido patrocínio para a viagem do filho. Não há, até aqui, prova de que o procurador tenha atendido a algum pedido do banqueiro.
Mas fica o estrago: como confiar num sistema em que os próprios fiscalizadores, ministro e procurador-geral, aparecem lado a lado na agenda do mesmo homem preso por fraude bancária? A família brasileira que só queria confiar na Justiça vê, mais uma vez, a régua sendo medida de um jeito só para os de fora do círculo.