STF empurra com a barriga o caso Moraes. De novo

Ontem era o dia. O país inteiro de olho no plenário do Supremo Tribunal Federal, esperando uma resposta simples: o ministro Alexandre de Moraes vai ou não ser investigado pela relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do falido Banco Master? Depois de horas de sessão extraordinária, o resultado foi o de sempre quando o assunto é dentro de casa: nada. Zero decisão. E o caso mais explosivo do Judiciário brasileiro foi, mais uma vez, empurrado para frente.
Vamos direto ao que pesa contra o ministro, porque o relatório da Polícia Federal não é opinião de blog, é apuração: 52 mensagens trocadas entre Vorcaro e um contato salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”, oito encontros entre os dois, e a participação do ministro na análise de um contrato de R$130 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia da própria esposa dele, Viviane Barci de Moraes. Isso é o que está em cima da mesa. E, em vez de julgar isso de frente, o plenário passou a tarde discutindo questão de ordem.
O decano Gilmar Mendes propôs juntar o processo de Moraes com o que investiga a conduta do ministro André Mendonça, responsável por ter tirado o sigilo do relatório, e empurrar tudo para o dia 23 de setembro. O placar terminou apertado, 4 a 3, e a sessão foi encerrada sem resolver absolutamente nada sobre o mérito do caso. De quebra, dois ministros saíram de cena: Kassio Nunes Marques se declarou impedido, e Dias Toffoli alegou suspeição. Ou seja, quase um terço da Corte nem sequer vai opinar sobre um colega que está sendo investigado por proximidade com um banqueiro preso.
Aqui está o absurdo que a família brasileira precisa entender: quando o assunto envolve político de oposição, essa mesma Corte já mostrou pressa, celeridade, prisões preventivas em tempo recorde. Quando o alvo é um dos seus, o relógio para. Vira questão de ordem, vira “juntar processos”, vira “vamos discutir de novo daqui a uma semana”. Enquanto isso, a Procuradoria-Geral da República já havia pedido a anulação total do relatório, alegando vícios na forma como foi produzido, e Moraes classificou publicamente a apuração como “inconstitucional e ilegal”, acusando o colega Mendonça de agir por vingança político-eleitoral.
Para ser justo com quem lê: ainda não há decisão final, nem confirmação de que o ministro cometeu qualquer crime, apenas indícios que a própria Corte ainda debate se merecem virar investigação formal. Mas é exatamente esse arrastar deliberado, essa capacidade de a instituição decidir sobre si mesma no seu próprio tempo, que corrói a confiança do cidadão comum na Justiça.
Fica a pergunta que ninguém no Supremo quer responder rápido: se fosse qualquer outro brasileiro trocando 52 mensagens com um banqueiro foragido, negociando contrato de R$130 milhões pela família, quanto tempo o processo demoraria para andar? Dia 23, o país volta a assistir. Duvido que dessa vez seja diferente.