A Copa, as diárias e o Brasil que escolheu errado as próprias prioridades
O fato: uma viagem que diz mais do que parece
Três promotores de Justiça do Ministério Público do Ceará embarcaram para os Estados Unidos com a missão “institucional” de acompanhar a Copa do Mundo. O custo ao contribuinte: R$ 44.409,39 em diárias e ajuda de custo, sendo que passagens aéreas, hospedagens e ingressos para os jogos serão custeados pelos próprios promotores. Ou seja: o Estado banca a “diária de campo” de quem vai assistir a jogos de futebol fora do país. O Povo
A justificativa institucional fala em acompanhamento de protocolos de segurança, gestão de multidões e articulação entre órgãos de segurança — o tipo de redação que toda burocracia bem treinada sabe produzir para revestir de “caráter técnico” aquilo que, aos olhos de qualquer cidadão, é uma viagem à Copa pagada com dinheiro público. Não por acaso, o episódio já chegou ao órgão de controle interno: o Conselho Nacional do Ministério Público instaurou um procedimento para apurar o pagamento das diárias.
Por que isso importa: o problema não é o valor, é o sistema que o produz
É tentador parar na indignação com o número. Mas focar apenas no “quanto” é cair na armadilha que Thomas Sowell descrevia como pensamento de estágio único: olhar só para o efeito imediato e visível, sem perguntar por que esse tipo de gasto é possível, recorrente e — o pior — defensável dentro das próprias regras da instituição.
A resposta está na natureza do dinheiro gasto. Milton Friedman classificava os gastos em quatro categorias, e a pior delas é gastar dinheiro de terceiros em benefício de terceiros: ninguém na cadeia tem incentivo para economizar, porque quem decide não é quem paga, e quem recebe não precisa convencer ninguém de que o gasto vale a pena — basta que ele caiba dentro de uma norma interna. A “ajuda de custo” do MP-CE não é uma anomalia: é o funcionamento normal de um orçamento sem teste de mercado, sem concorrência e, na prática, sem prestação de contas efetiva ao cidadão que financia tudo.
Do caso isolado ao padrão: o “país dos privilégios” em números
Se o episódio do Ceará fosse exceção, seria apenas um escândalo local. Mas ele é sintoma de uma lógica nacional, repetida em escala muito maior. Levantamentos recentes mostram que o Brasil gasta cerca de R$ 20 bilhões por ano com os chamados “penduricalhos” de servidores públicos — verbas indenizatórias, adicionais e gratificações que, somadas, geram mais de 53 mil remunerações que ultrapassam o teto constitucional no país.
O pesquisador Bruno Carazza, autor de um estudo sobre o tema, resume o ponto central: resolver a situação exige enfrentar a estrutura como um todo, porque cortar um tipo específico de penduricalho tende apenas a deslocar o privilégio para outra rubrica. É exatamente o que Roberto Campos descrevia como o “Estado cartorial”: uma máquina que se autorregenera, encontrando sempre uma nova “diária”, uma nova “gratificação”, uma nova “verba indenizatória” para preservar o padrão de vida de quem está dentro do sistema — independentemente de qualquer ciclo orçamentário, ajuste fiscal ou crise econômica.
E o problema não é de hoje nem está perto de acabar: o próprio orçamento de 2026 prevê um gasto específico de R$ 545 milhões para custear 36,9 mil gratificações que ainda estão em análise no Congresso, e especialistas em orçamento alertam que esse tipo de despesa tende a se perpetuar, já que as gratificações passam a integrar a rotina da máquina pública, elevando continuamente o gasto com pessoal e reduzindo a margem para investimentos em infraestrutura, saúde e educação.
O segundo absurdo: o teto que não é teto
Há um exemplo ainda mais revelador da distância entre a regra escrita e a realidade praticada. A Constituição estabelece um teto remuneratório para o serviço público — hoje fixado em R$ 46.366,19, valor em vigor desde fevereiro de 2025. Na teoria, nenhum servidor deveria receber acima disso. Na prática, as mais de 53 mil remunerações que furam esse teto mostram que a regra existe para ser contornada, não cumprida.
Mais curioso ainda: mesmo esse teto, que já é alto para os padrões da renda média brasileira, está defasado em relação à própria inflação. Uma análise recente aponta que se o teto de janeiro de 2006 (R$ 24.500) tivesse sido corrigido integralmente pelo IPCA, ele deveria estar hoje em pelo menos R$ 71.539 — e o artigo observa que essa “defasagem” é usada como justificativa para criar as tais “soluções heterodoxas”: penduricalhos, gratificações e verbas que, somados, ultrapassam de qualquer forma o limite constitucional.
Ou seja: o sistema reclama que o teto é baixo demais ao mesmo tempo em que cria mecanismos paralelos para ultrapassá-lo. É o tipo de incoerência que Olavo de Carvalho chamava de “duplo padrão institucionalizado” — a norma serve para constranger o cidadão comum, mas é interpretada com elasticidade infinita quando se trata da própria casta que a escreveu.
A conexão que falta: o que esse dinheiro poderia ter sido
Aqui está o ponto que une os dois casos — o da Copa e o dos penduricalhos — e que normalmente se perde nas notas de indignação pontual: o problema não é o gasto em si, é o custo de oportunidade que ele representa, multiplicado por todo o aparato público brasileiro.
Peter Drucker ensinava que toda organização precisa responder a uma pergunta básica: quem é o cliente, e o que ele valoriza? No setor privado, uma empresa que desvia recursos para benefícios desconectados de resultado entra em prejuízo e, eventualmente, fecha ou é vendida. No setor público brasileiro, a resposta a essa pergunta é circular: o “cliente” é a própria instituição, e o que ela “valoriza” é definido por ela mesma, em portarias e normas internas, sem qualquer mecanismo externo de correção.
Enquanto isso, o Banco Mundial já havia diagnosticado, em estudo amplo sobre o gasto público brasileiro, que vários programas governamentais beneficiam os mais ricos mais do que os pobres e não atingem de forma eficaz seus objetivos declarados — e que seria possível economizar parte do orçamento sem prejudicar o acesso e a qualidade dos serviços públicos, beneficiando justamente os estratos mais pobres da população. O relatório também identificou que o gasto público brasileiro está cada vez mais engessado pela rigidez constitucional em folha de pagamento e previdência, deixando quase nenhum espaço para investimento. worldbank + 2
A conclusão: privilégio tem nome, e não é “interesse público”
Margaret Thatcher resumiu o ponto central com a frase que se tornou clichê justamente porque ninguém conseguiu refutá-la: não existe dinheiro público, existe dinheiro do contribuinte. Cada diária de Miami, cada penduricalho acima do teto, cada gratificação “em análise no Congresso” é um real que saiu do bolso de quem paga impostos — e que, via de regra, paga proporcionalmente mais quanto mais pobre é, dada a estrutura regressiva da tributação brasileira sobre consumo.
O escândalo do MP-CE não é grave por seu valor absoluto — R$ 44 mil é uma fração irrisória diante dos R$ 20 bilhões anuais em penduricalhos ou dos R$ 545 milhões em novas gratificações previstas para 2026. Ele é grave porque é legível: qualquer brasileiro entende imediatamente o que significa “promotor recebe diária para ver jogo nos EUA”. E essa legibilidade expõe, em miniatura, uma lógica que se repete, de forma muito menos visível, em milhares de rubricas orçamentárias todos os anos.
A pergunta que fica não é “quanto custou a viagem dos promotores?”. É: quantas “viagens dos promotores” existem, silenciosas, dentro da máquina pública brasileira — e quanto desse dinheiro somado bastaria para abrir, para quem nasce sem rede de proteção, sem capital e sem voz política, uma rota real de ascensão que hoje simplesmente não existe?