Governo denuncia EUA em segredo a 3 dias da urna

Faltam três dias para o primeiro turno, e o governo brasileiro escolheu esse exato momento para fazer uma denúncia gravíssima, só que longe dos olhos do eleitor brasileiro. Segundo documentos e fontes obtidos pela Reuters, a Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, comunicou formalmente a França e à Alemanha que Estados Unidos e Rússia estariam tentando interferir nas eleições deste domingo.
O detalhe que chama atenção: a denúncia não foi feita em entrevista coletiva, nem em documento público. Foi entregue a portas fechadas, numa reunião com uma delegação francesa e alemã que esteve em Brasília entre os dias 9 e 11 de setembro, oficialmente para tratar de regulação europeia contra desinformação. Segundo o material, a suposta interferência americana iria “desde a instrumentalização do sistema judicial até uma ingerência abertamente reconhecida”. Da Rússia, nem isso: não se sabe sequer quais seriam as ações alegadas.
Aqui está o que a família brasileira merece entender sem filtro: essa narrativa não é nova. Lula já vem repetindo a tese de interferência estrangeira há semanas, inclusive na tribuna da ONU, em 22 de setembro, quando disse que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”, numa referência direta às tarifas impostas pelos Estados Unidos e à sanção aplicada contra o ministro Alexandre de Moraes em agosto de 2025. Ou seja, o governo que está disputando a reeleição é o mesmo que está, simultaneamente, acusando o principal parceiro comercial do país de sabotar o processo que pode tirá-lo do poder.
E o timing levanta ainda mais dúvidas: a denúncia aos europeus veio à público justamente na mesma semana em que Lula e Flávio Bolsonaro intensificam a disputa voto a voto nos estados mais ricos do país, com pesquisas mostrando a corrida mais apertada em oito anos. Washington e Moscou sequer responderam oficialmente à revelação, mas já haviam negado anteriormente qualquer tentativa de interferência no pleito.
Para ser justa com o leitor: os representantes alemães que estiveram na reunião negam que a suposta interferência americana tenha sido sequer discutida no encontro, o que gera uma contradição direta com a versão vazada aos jornalistas. Nenhuma prova concreta de interferência foi apresentada publicamente até agora, nem pelo lado do governo brasileiro, nem pelos americanos ou russos.
Fica a pergunta que não quer calar, a três dias da urna: se o governo realmente tem provas de interferência estrangeira na eleição, por que entregá-las em segredo a diplomatas europeus, em vez de apresentá-las abertamente ao povo brasileiro, que é quem vai decidir o próprio voto no domingo? Ou será que o verdadeiro objetivo é plantar, desde já, a desculpa pronta para um resultado que pode não vir como o Planalto espera?